• Juliana de Paula

Travailler et voyager: o mundo de possibilidades do nomadismo digital

Uma tarde de sol em Rennemoulin, nos arredores de Paris.

Zygmunt Bauman certa vez escreveu: “A imobilidade não é uma opção realista num mundo em permanente mudança”. No mundo dominado pela internet, pelo home office e o ensino híbrido, esse pensamento faz mais sentido do que nunca.


Sempre considerei o ensino e a aprendizagem da língua francesa como uma experiência para a vida toda, uma porta de entrada para novos lugares e pessoas. Uma revolução que começava na sala de aula e se expandia pelo mundo.


Para mim, compreender um idioma sempre foi muito além do conhecimento técnico, que de fato é essencial, mas não engloba toda a complexidade cultural do assunto. Falar mais de um idioma é, acima de tudo, um modo de ver a vida, uma ponte que nos aproxima de coisas que pareciam, até outro dia, muito distantes. Pode ser uma viagem dos sonhos, um novo emprego, uma nova formação, novos amigos ou apenas algo tão simples quanto sentar-se num café e ler um livro num idioma diferente do seu.


A outra função transformadora de ser bilíngue é justamente essa sobre a qual nos fala Bauman: a mobilidade. Poder cruzar fronteiras com segurança e altivez, poder se comunicar, seja pessoalmente ou com o auxílio das ferramentas digitais, sem ter a preocupação de não ser compreendido.


No mundo digital, aprender um novo idioma é, acima de tudo, uma forma de liberdade.


Um novo jeito de aprender

Esse é um tema que fala diretamente ao meu coração. Com a reviravolta causada pela pandemia, percebi que novos caminhos se abriam para o meu trabalho como educadora. Esta não era apenas uma demanda minha, era uma necessidade trazida pelos próprios alunos.

Não estávamos abandonando a sala de aula, mas descobrindo que podemos aprender de diferentes formas, em diferentes momentos do dia e também em diferentes lugares.


A formalidade da sala de aula continua tendo o seu valor, mas agora temos ao nosso redor um mundo de possibilidades que precisam ser exploradas.


O computador deixou de ser apenas uma tela e transformou-se numa passagem. Hoje é algo comum, mas ainda me admiro com a possibilidade de, num único dia, poder trabalhar com alunos de diferentes partes do mundo. A experiência de poder criar, conversar, descobrir e reinventar o nosso trabalho de qualquer lugar – desde que tenhamos um bom sinal de internet e uma boa xícara de chá – é algo transformador.



Tailândia: um dos países mais surpreendentes e encantadores que conheci recentemente.

Ser nômade no mundo digital

Com o home office cada vez mais comum, uma expressão passou a fazer parte do meu cotidiano: ser um(a) nômade digital.


O nomadismo digital é uma forma de vida que envolve a liberdade de trabalhar e viajar ao mesmo tempo. É uma tendência crescente entre os profissionais liberais que desejam ter mais flexibilidade e controle sobre suas vidas. Você não abandona o escritório (ou a sala de aula, como é o meu caso), mas passa a leva-lo junto com você.


Os nômades digitais são profissionais que trabalham online, o que lhes permite trabalhar de qualquer lugar do mundo. Isso lhes dá a liberdade de escolher quando e onde executam suas funções.


Ouro Preto: a cidade mineira que me acolheu é um grande caldeirão cultural. Foto: Unsplash.


Sempre me considerei nômade por essência. Sempre vi a língua francesa como pontapé inicial para desbravar o mundo. O desafio que se apresenta é o de saber conciliar trabalho e vida pessoal. É encontrar o equilíbrio entre dedicação e disciplina (bases para qualquer aprendizado) e ainda encontrar tempo para o acaso e o inusitado.


Esse desafio não é só meu. Recomendo sempre aos alunos e professores de francês em formação que organizem sua vida digital com rigor. A liberdade oferecida pelas ferramentas digitais é uma via de mão dupla.

Eis 4 dicas que considero essenciais:

O melhor da internet é de graça:


Diversas ferramentas úteis em nosso dia a dia diante do computador são gratuitas. Isso quer dizer que não é preciso investir em aplicativos e softwares caros. Sites como Notion (para organizar aulas, temas, livros, vídeos e links), Wakelet (para compartilhar listas e materiais digitais) ou Google Meet (para chamadas de vídeo e áudio) são parte da minha rotina e podem ajudar a criar um ambiente digital de trabalho sem gastar nenhum real (ou euro).

Quanto maior a sua mobilidade, maior o seu planejamento:


Trabalhar e viajar é uma delícia, mas demanda muita, muita organização. Você deverá pensar em todos os contratempos possíveis: voos atrasados, hospedagem cancelada, pneus furados, sinal de internet sofrível. Por isso, ter uma agenda com todo o seu itinerário é essencial. Outra coisa fundamental é se atentar ao fuso-horário. Muitas vezes o seu horário de trabalho cairá no meio da madrugada. Dormir bem e se alimentar corretamente ajudam a contornar esse viés.

Mova-se, mas não deixe de criar raízes:


Trabalhar e viajar não significa não se apegar a nada. Mesmo em outro país podemos e devemos criar pequenas raízes. Escolha o bairro que mais lhe convém, converse com as pessoas do local, descubra o restaurante favorito dos moradores, dê bom dia ao vendedor da feira. Esses pequenos rituais de gentileza e acolhimento amenizam a sensação de “peixe fora d’água” que pode bater uma vez ou outra.

Aprenda, passe adiante, aprenda de novo:


A vida nômade é uma grande escola. Em cada país, em cada cidade encontramos novas pessoas, novas ideias. Essa rica bagagem cultural só faz sentido se for compartilhada. Aproveite todo o conhecimento adquirido e depois reparta-o com os outros. O saber cultural só se realiza quando nos conectamos com outras pessoas. Aqui, quanto mais dividimos, mais somamos.

Conclusão

Os desafios da vida digital são inúmeros, mas as transformações que vivemos hoje não terão volta. O que podemos fazer é adaptar nossos conhecimentos, expandir nossas habilidades e abrir nossas mentes para o novo e o inusitado.

O que você acha do nomadismo digital? Me conta nos comentários.


 


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